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sábado, 29 de janeiro de 2011

DOS SINTOMAS

Celulares pós-pagos pensando economias estratégicas,
Maiúsculas sintaxes amarradas em infalíveis doses de alegria,
Tento meter tudo na agenda para me lembrar dos custos
de toda área de transferência de minhas revisões,
Requento o perdão no microondas e meto na boca  
junto com o volume dos seios da protagonista,
Arroto uma cerveja no espaço da narração publicitária
entre as rolhas da garrafa de gênero aberto.

Na delicadeza do design do apartamento,
traíras voadoras cercam o lustre.

Recorto seminaristas aportados nos congressos de pesca
cantando Gonzaguinha e outras canções de esperança
a favor da construção de mais uma escada-rolante
que nos leve para fora daqui.

sábado, 15 de janeiro de 2011

DA MEMÓRIA

Pela árida esteira que desce à Parnaíba
Antes que eu já não lembre a cor dos olhos dela
Invento meus cavalos amanhecidos
Dentro da casa de sombras

Onde imaginadas estrelas
Destelham a nascente do quarto
E as crianças de outrora
Falseiam a memória e os perigos:

Serpentes na cabeceira do rio,
Insetos debaixo do lençol,
Os olhos do tio e da cascavel
Que espreitam qualquer sinal de fumaça.

No tempo em que se formam as pedras,
Em preces antes do sono,
Queimam os flamboiãs de fogo
Na praça dos meus afetos.

                                       
No período em que aconteciam as performances da MOLA, acabei passando por vários grupos de fanfarra que desfilavam na rua Chile. Fuçando meu laptop reencontrei esta imagem. 

domingo, 28 de novembro de 2010

DOS MARCIANOS

De minha geladeira abro e penso uma maçã ao meio
A cidade é madrepérola com a ossatura minada por cantos escuros,
A cidade se ilumina ancorada em travestis e em planos de saúde,
Melhor assim, nada funciona:
Me disse que era triste meu amigo mais feliz.
Grande sertão Win Wenders...
Até que os mares subam e a gente flutue
Em barcos de garrafa pet.
Dentro de minha geladeira
Enquanto penso se como ou não a maçã
Iluminada pela luz fria
Se no escuro, como seria?
E se ao invés de barcos fossem cavalos
Atravessando a faixa de pedestres
Com uma criança em cada mão
O olho que não está no meio mas nas costas
Como os cegos por seus cães
Atropelados.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

DOS MONSTROS

Eu queria um poema monstruoso
Com garras de arame
E dentes de ginsu
Um poema que mutilasse
Que fosse bicho
Que tomasse de abrupto
Seu fígado
E seu estômago.
E revirasse tuas vísceras
Vivas e vermelhas,
Lhe arrancasse as tripas
Pelos dentes da boca,
Arranhasse, repartisse, recompusesse
Uma nova e cruel vitalidade;
Um poema que dissesse
De todos e de nenhum.
Como garfos aquecidos no gim
Como lâminas repartidas em luz
Um poema de flores e de cus
Um poema de rosa e de azuis
Um poema de satanás e de Jesus
O louco que te devora os pés
Ainda molhados do chuveiro
E que te lambe três vezes mais
Enquanto sangra.

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