Tecnologia do Blogger.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

para um pequeno amor


Eu diante da página em branco
que em nada se parece frente a um ano novo,
cuja única novidade é a manutenção de si mesmo,
cujo fluxo de moedas e carros ciclos sintomas e pulsões
se esvazia diante de uma paixão ou do sono.
Atravesso a primeira madrugada do poema.

Não seria sua a voz que escuto atravessar a janela?

Rasuro todos os poemas na tentativa de inventar novamente
outro conglomerado de palavras que tenha semelhança com seu rosto
ausências, chás de ervas finas e pétalas
há tanto guardados na gaveta que hoje mantemos trancada
contra o tempo que são ondas contra a pedra,
contra a pedra que é Deus na ideia das coisas,
sensação térmica que tenho e trago
como se este mesmo Deus queimasse dentro
em um último movimento, talvez
antes de amanhecer.

Um sax tenor desperta no espaço onde a métrica se dissolve.

Heya heya! Atracamos na linha imaginária,
no ponto onde estamos no mundo
e o mundo entre mim e ti.

Heya! Saudemos a enigmática permanência das coisas
como águas pedras que mudam, sereias
reescamadas por um artista do moma
et cetera.





  

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Ian Marin 2.0

I
Pastor dos Mares

À deriva, a vagar por aí
entre-ondas, perdido
ou por Deus esquecido:
Dei de cara com escombros
com o assombro da vida, 

de uma possível viagem.
E a bússola partida,
era trilha com o vento
em um veleiro branco,
pelo mar tenebroso,

no limite que faz
entender que a lida
recomeça no impulso
e os nossos recursos,
mesmo que sejam parcos,
encontramos no sangue.

Inventário de cinzas,
recomeço de nadas
e a possível viagem
pelas águas abertas.

E por baixo das nuvens 
com você na cabeça,
sinto a vela curvando,
flutuando nos mastros.

Vejo o rastro de espumas
e a quilha que leva
do pensamento solto, 
do voo livre ao pouso.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

BALEADO


No jogo, o corpo se esquiva
e a bola escapa da mão indecisa
e quica na cor terrosa
que lhes tinge calças
e calcanhares.

A claridade do suor
e a alacridade da ação
escorrem do pescoço
e do braço marcado.

E mesmo sob um céu limpo e impiedoso,
cercado de estacas e montanhas,
quase já sem vida pela secura dos tempos,
a terra levita pelo sopro
que desce da serra.

Na ponta do dedo
o mundo escapa
e cai no chão estilhaçado,
esparramado entre as unhas vermelhas
da menina adolescente
e os pedregulhos.  

domingo, 19 de agosto de 2012

DA BRUXA


Quem haveria de ocupar a cena
Senão tu e suas ervas daninhas?
Preparando a lenha, eu retinha
Reinscrições de tua maldade apenas.

Pois que na história de ti há centenas,
Coletora de alheias alegrias,
Tu, que acordas à noite e adormece o dia,
Constrói nas horas vagas outras vindimas:

Vodoos tecidos com os próprios cabelos,
Amores, conclaves demoníacos,
Fantoches com os olhos alinhavados.

Agudez do canto aleivoso,
Tuas unhas de vermelho menstruado
E o hálito embebido de amoníaco.  

sábado, 30 de junho de 2012


Porque a vida, minha mãe, há de ser mais que isso, esse caminhar para Deus com tanta tristeza digna. Essa fina desesperança que compõe a lida. Há de ser mais que mentira e traição, mais que os outros espiando fechaduras. Há de ser mais que um gozo desprovido de ternura, mais que a morte que nos nutre de força e amargura. Há de ser o canto de Elis iluminando salas e os anos das crianças, um jardim de tulipas, o sono sem culpa. Há de ser o carinho que não fere, não mata e não estupra. Há de ser caqui desmanchando na boca e o pássaro que volta pousando na porta. Há de ser a saudade boa das coisas idas e a garoa noturna que traz falenas, o cheiro terroso das ruas da chuva que tanto demora. Porque a vida, minha mãe, há de ser o simples sorriso que aflora, mais que a velhice que nos enfraquece e nos devora. Mais que esta luminosidade de treva que nos encobre agora.
 
                                                     photo by Bruce Weber

Translate

Seguidores

  © Blogger templates The Professional Template by Ourblogtemplates.com 2008

Back to TOP