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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

BALEADO


No jogo, o corpo se esquiva
e a bola escapa da mão indecisa
e quica na cor terrosa
que lhes tinge calças
e calcanhares.

A claridade do suor
e a alacridade da ação
escorrem do pescoço
e do braço marcado.

E mesmo sob um céu limpo e impiedoso,
cercado de estacas e montanhas,
quase já sem vida pela secura dos tempos,
a terra levita pelo sopro
que desce da serra.

Na ponta do dedo
o mundo escapa
e cai no chão estilhaçado,
esparramado entre as unhas vermelhas
da menina adolescente
e os pedregulhos.  

domingo, 19 de agosto de 2012

DA BRUXA


Quem haveria de ocupar a cena
Senão tu e suas ervas daninhas?
Preparando a lenha, eu retinha
Reinscrições de tua maldade apenas.

Pois que na história de ti há centenas,
Coletora de alheias alegrias,
Tu, que acordas à noite e adormece o dia,
Constrói nas horas vagas outras vindimas:

Vodoos tecidos com os próprios cabelos,
Amores, conclaves demoníacos,
Fantoches com os olhos alinhavados.

Agudez do canto aleivoso,
Tuas unhas de vermelho menstruado
E o hálito embebido de amoníaco.  

sábado, 30 de junho de 2012


Porque a vida, minha mãe, há de ser mais que isso, esse caminhar para Deus com tanta tristeza digna. Essa fina desesperança que compõe a lida. Há de ser mais que mentira e traição, mais que os outros espiando fechaduras. Há de ser mais que um gozo desprovido de ternura, mais que a morte que nos nutre de força e amargura. Há de ser o canto de Elis iluminando salas e os anos das crianças, um jardim de tulipas, o sono sem culpa. Há de ser o carinho que não fere, não mata e não estupra. Há de ser caqui desmanchando na boca e o pássaro que volta pousando na porta. Há de ser a saudade boa das coisas idas e a garoa noturna que traz falenas, o cheiro terroso das ruas da chuva que tanto demora. Porque a vida, minha mãe, há de ser o simples sorriso que aflora, mais que a velhice que nos enfraquece e nos devora. Mais que esta luminosidade de treva que nos encobre agora.
 
                                                     photo by Bruce Weber

quinta-feira, 7 de junho de 2012


DOS ESTILHAÇOS


Lastros da casa antiga,
ferrugem, repletas de ferrugem
estão todas as vias.

Obnubilações da consciência
orfão subnegado, demônio do ar.
Arfando à procura do nome perdido
da face perdida na ilha submersa.

a volta que deste
a si mesmo impuseste
naufrágios,
abrindo portas e janelas
para abutres raivosos

que rondam teu fígado exposto
teu coração exposto, teus sonhos decompostos
por teus próprios amigos.

Restavam apenas três pormenores
desintegrados no tempo de um soluço,
fugazes como a alacridade de um sorriso:

Três descobertos e eram gêmeos
unidos pela violência de destruições incontáveis
e pelas mãos de uma mesma mulher, 
tão puta quanto a mãe.

O primeiro, reificado, eu mesmo.
O segundo ensaia risos, disfarça.
O terceiro ainda tritura entranhas
velado pela lua e incensos de canela.

O que ainda há de ser dito e transfigurado no poema
quando já nem mais podemos ficar
nus em nossas casas?

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