Entre miasmas, ruídos, máscaras, entre o parque central e o cemitério São Pedro, onde havia uma cova com meu nome, de sandálias pela cidade cenográfica até o mar: performances, deformances e reformances contribuíram para certo pulso vital de um lugar de fluxo contínuo e d`aguazul inigualável.Oxalá! Com tanto peso simbólico, foi impossível conter o vômito. Barcos, corações, crucifixos, mercedes, facas, tumblios dissimulados postos pra fora sob um grito mudo e uma intensidade fraterna.
sábado, 30 de março de 2013
sexta-feira, 22 de março de 2013
segunda-feira, 4 de março de 2013
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
paparam meu sono
"e ainda que as janelas se fechem, meu pai,
é certo que amanhece"
(Hilda Hilst)
Em meus dias de insônia, consigo ouvir o raspar das vassouras retirando o lixo das ruas. Isto acontece às três da manhã, hora em que muita dona de casa teria pavor de sair de seu aconchegante lar. Neste momento não sei muito bem, devido ao desejo urgente de dormir e à vigília involuntária, se é o diabo que está a dar um passeio ou se são mesmo vassouras raspando paralelepípedos. É a hora em que fecho as janelas definitivamente e aprendo a conviver com o calor constante de minha cidade natal e de meu quarto. É nesta hora indevida, porém, que a cabeça está processando uma série de informações adquiridas durante o dia e pernilongos insistem em arrodeá-la. Espalmo uns três já pesados de meu sangue, às três e trinta o galo encerra o canto. O ser insone passou a ser constante desde que preocupações mais abstratas começaram a ocupar o intelecto e a vida que, repetidamente, insiste em nos deixar ciosos do dia, ele pronto e singular, mas incapaz de transgredir a si mesmo. É o fardo das cidades pequenas, dos trabalhos carregados de função moral e da idade que não pode ser mais evitada. Dessa confusão momentânea, o estado da alma realiza solilóquios sobre a língua parada e há uma preguiça imensa sobre as coisas dos homens, sobre as minhas inclusive. Se rezo, penso no papa e se penso no papa, penso em carnaval. E neste momento mesmo sorrio por pensar o papado como um alegoria decadente, acho que pela ostentação contínua de poder e riqueza. Coisas que penso sem nenhum rigor, até porque não vou à igreja e pouco me interessa aquilo que o conclave dita para a juventude cristã que, inegavelmente, vai estar mais segura ao lado de ateus e agnósticos. O deus que não sou, pensa: a renúncia é uma denúncia. Entretanto, nunca fora novidade os causos de pedofilia, de corrupção e assassinatos na igreja. Jornais, revistas, todos ansiosos por mais uma declaração que lhes preencha pautas e laudas. Que assim seja, porque o mundo, em desagregação constante, mesmo que as mídias sociais e virtualizações da subjetividade indiquem o contrário, não precisa mais de instituições caducas. O que nada tem a ver com espiritualidade e poesia, certo é que o mundo e o homem sem espiritualidade são mais pobres, mas uma coisa é clara: da tríade só nos resta o espírito santo, porque o filho nós matamos, o pai sempre foi ausente e o espírito santo tenta capengamente se esquivar de tentativas constantes de corrompê-lo. Agora o sono é chegado e devemos aproveitá-lo, já que o melhor da vida ainda está adormecido.
sábado, 2 de fevereiro de 2013
Rainbowflux
Minha querida, Eleonor
Agora não há palavras nem disposição para qualquer poema, aceite esta pequena abstração como uma representação sanguínea imperfeita, acontecimento que ofusca os olhos, como um tipo de desprezo por toda arte tipográfica. Ando sem muita paciência e com uma certa tristeza comprimindo a testa e os ossos da mão. Conhecemos bem tal sentimentos que deixam os músculos relaxados e já sem forças. Pensei em porres e sonos prolongados, mas parece que nada mais funciona a essa altura do dia. Sento-me ao passeio a escrever esta carta como se, por um milagre, o ar me servisse de medicamento e o fluxo dos carros dinamizasse minha vida e minha compreensão das coisas. A cidade não silencia e meu barco permanece em sua zanza interminável. Luto contra o verme que me rói a paz de espírito, mesmo verme que talvez passe a ser uma das poucas coisas que possuo, como é usual. Evito me alimentar dessa tristeza e poucas moedas me restam para um uísque ou qualquer bebida quente. Espero que estejas recebendo minhas cartas, pois ouvi que o serviço de postagem do porto não anda muito eficaz, mesmo que agora pareçamos apenas dois fantasmas rumorejando nossas canções preferidas, distantes, é grande o desejo de adormecer em teus braços finos e partilharmos do mesmo sentimento de contemplação vazia que existe no toque das peles.
Do sempre seu,
Ian.
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
para um pequeno amor
Eu diante da página em
branco
que em nada se parece
frente a um ano novo,
cuja única novidade é
a manutenção de si mesmo,
cujo fluxo de moedas e
carros ciclos sintomas e pulsões
se esvazia diante de
uma paixão ou do sono.
Atravesso a primeira
madrugada do poema.
Não seria sua a voz
que escuto atravessar a janela?
Rasuro todos os poemas
na tentativa de inventar novamente
outro conglomerado de
palavras que tenha semelhança com seu rosto
ausências, chás de ervas finas e pétalas
há tanto guardados na
gaveta que hoje mantemos trancada
contra o tempo que são
ondas contra a pedra,
contra a pedra que é
Deus na ideia das coisas,
sensação térmica que
tenho e trago
como se este mesmo Deus
queimasse dentro
em um último
movimento, talvez
antes de amanhecer.
Um sax tenor desperta
no espaço onde a métrica se dissolve.
Heya heya! Atracamos na
linha imaginária,
no ponto onde estamos
no mundo
e o mundo entre mim e
ti.
Heya! Saudemos a
enigmática permanência das coisas
como águas pedras que mudam, sereias
reescamadas por um artista do moma
et cetera.
et cetera.
terça-feira, 30 de outubro de 2012
Ian Marin 2.0
I
Pastor dos Mares
À deriva, a vagar por aí
entre-ondas, perdido
ou por Deus esquecido:
Dei de cara com escombros
com o assombro da vida,
de uma possível viagem.
E a bússola partida,
era trilha com o vento
em um veleiro branco,
pelo mar tenebroso,
no limite que faz
entender que a lida
recomeça no impulso
e os nossos recursos,
mesmo que sejam parcos,
encontramos no sangue.
Inventário de cinzas,
recomeço de nadas
e a possível viagem
pelas águas abertas.
E por baixo das nuvens
com você na cabeça,
sinto a vela curvando,
flutuando nos mastros.
Vejo o rastro de espumas
e a quilha que leva
do pensamento solto,
do voo livre ao pouso.
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
BALEADO
No jogo, o corpo se
esquiva
e a bola escapa da mão
indecisa
e quica na cor terrosa
que lhes tinge calças
e calcanhares.
A claridade do suor
e a alacridade da ação
escorrem do pescoço
e do braço marcado.
E mesmo sob um céu
limpo e impiedoso,
cercado de estacas e
montanhas,
quase já sem vida pela secura dos tempos,
a terra levita pelo
sopro
que desce da serra.
Na ponta do dedo
o mundo escapa
e cai no chão estilhaçado,
esparramado entre as
unhas vermelhas
da menina adolescente
e os pedregulhos.
domingo, 19 de agosto de 2012
DA BRUXA
Quem haveria de ocupar a cena
Senão tu e suas ervas daninhas?
Preparando a lenha, eu retinha
Reinscrições de tua maldade apenas.
Pois que na história de ti há
centenas,
Coletora de alheias alegrias,
Tu, que acordas à noite e adormece o
dia,
Constrói nas horas vagas outras
vindimas:
Vodoos tecidos com os próprios
cabelos,
Amores, conclaves demoníacos,
Fantoches com os olhos alinhavados.
Agudez do canto aleivoso,
Tuas unhas de vermelho menstruado
E o hálito embebido de amoníaco.
segunda-feira, 16 de julho de 2012
sábado, 30 de junho de 2012
Porque a vida, minha mãe,
há de ser mais que isso, esse caminhar para Deus com tanta tristeza
digna. Essa fina desesperança que compõe a lida. Há de ser mais
que mentira e traição, mais que os outros espiando fechaduras. Há de ser mais que um gozo desprovido de ternura, mais
que a morte que nos nutre de força e amargura. Há de ser o canto
de Elis iluminando salas e os anos das crianças, um jardim de
tulipas, o sono sem culpa. Há de ser o carinho que não fere, não
mata e não estupra. Há de ser caqui desmanchando na boca e o
pássaro que volta pousando na porta. Há de ser a saudade boa das
coisas idas e a garoa noturna que traz falenas, o cheiro terroso das ruas
da chuva que tanto demora. Porque a vida, minha mãe, há de ser o
simples sorriso que aflora, mais que a velhice que nos enfraquece e
nos devora. Mais que esta luminosidade de treva que nos encobre
agora.
photo by Bruce Weber
quinta-feira, 7 de junho de 2012
DOS ESTILHAÇOS
Lastros da casa antiga,
ferrugem, repletas de
ferrugem
estão todas as vias.
Obnubilações da
consciência
orfão subnegado, demônio
do ar.
Arfando à procura do nome
perdido
da face perdida na ilha
submersa.
a volta que deste
a si mesmo impuseste
naufrágios,
abrindo portas e janelas
para abutres raivosos
que rondam teu fígado
exposto
teu coração exposto,
teus sonhos decompostos
por teus próprios amigos.
Restavam apenas três
pormenores
desintegrados no tempo de
um soluço,
fugazes como a alacridade
de um sorriso:
Três descobertos e eram gêmeos
unidos pela violência de
destruições incontáveis
e pelas mãos de uma mesma mulher,
tão puta quanto a mãe.
O primeiro, reificado, eu
mesmo.
O segundo ensaia risos, disfarça.
O terceiro ainda tritura entranhas
velado pela lua e incensos
de canela.
O que ainda há de ser
dito e transfigurado no poema
quando já nem mais
podemos ficar
nus em nossas casas?
quarta-feira, 23 de maio de 2012
quarta-feira, 9 de maio de 2012
sábado, 7 de abril de 2012
sexta-feira, 6 de abril de 2012
sábado, 31 de março de 2012
O MENINO-MULA
para Lucas Santana*
E agora, como se limpa esta mancha de sangue das roupas, este cheiro peculiar da mistura de sêmen, bosta e urina? Alvejante e indiferença? Quais são as chaves para salvar o menino que agora você prende, usa e estupra? Quais são as chaves para salvar sua corja depois que tudo pender na forca? Depois que o trem passar por cima de sua roupa de malha fina que também nos foi roubada? Que gosto tem a carne podre entre os dentes, que som tem o gemido dos doentes? Nosso destino trágico e sinistro, nossas palavras soltas e dementes. Ato de amor aqui é manter o lobby, roubar os pobres, arrancar-lhe os ossos, enfeitar clavículas em mesas regadas a vinho e algumas cláusulas. Que gosto tem minha porra em sua boca? Sangue e fotografia esparramados numa cova fria, já posso mijar na sua cara? O teu Deus vomita plantas mortas e maçãs ressecadas, castanhas do Pará engasgadas. Há papéis higiênicos importados para limpar sua bunda? Quantos nomes estariam gravados em sua mesa, quantos se favoreceram com a chuva? Política de cu é rola, nem tudo acaba em pizza. Qual será a sobremesa?
* para ler ouvindo o deus que devasta mas também cura.
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